Livro sobre quilombola traz fatos inéditos


Jornalista Genisete Lucena durante lançamento do livro na casa Maria Mariá em União dos Palmares



escritora palmarina Genisete de Lucena Sarmento lançou na 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas a obra “A Ocupação das Terras do Quilombo dos Palmares e a Criação de Vilas – Introdução à história de União dos Palmares”. O livro retrata a última batalha dos aguerridos quilombolas palmarinos na Serra da Barriga contra as tropas invasoras de Domingos Jorge Velho, que destruiu o Quilombo, 100 anos depois de sua fundação em 1694, e as consequências para a Capitania de Pernambuco – Alagoas. Isso e muito mais fatos estão no livro, com novos documentos, resultantes de exaustiva pesquisa realizada pela escritora. A reportagem da Tribuna Independente conversou com a autora que contou o que tem de importante na obra e o diferencial do livro.

 

Tribuna Independente – O que o leitor pode encontrar nesta obra lançada?

Genisete Sarmento – A história começa no dia 6 de fevereiro de 1694, dia em que Domingos Jorge Velho chegou ao platô da Serra da Barriga, após sair vitorioso na batalha que destruiu o Quilombo dos Palmares. O leitor encontrará no livro a narrativa dos acontecimentos posteriores, desde a luta de Domingos Jorge Velho para se apossar das terras agora desocupadas, garantidas aos paulistas no acordo assinado em 1687 entre estes e o então Governador da Capitania de Pernambuco; a criação do Terço dos Paulistas, para guarnecer a área e impedir a reorganização do quilombo; a distribuição de largas sesmarias, o povoamento e posteriormente a formação de vilas, entre elas Atalaia e União dos Palmares.

Tribuna Independente – Tem alguma descoberta nova, inusitada?

Genisete Sarmento – Várias. Uma delas é que o Arraial de Nossa Senhora das Brotas não ficava em Atalaia, como aprendemos na escola. Atalaia é que foi fundada nas vizinhanças do Arraial. Outro fato interessante sobre Atalaia é que foi criada por determinação real. O rei havia implementado a política de acabar com os aldeamentos indígenas transformando-os em lugares ou vilas.  Os primeiros moradores e fundadores de Atalaia foram os índios das aldeias de Urucu, Santo Amaro e Gameleira além de outros menores, inclusive os índios de Palmeira. Portanto, as 224 casas construídas na Vila de Atalaia foram habitadas por índios, somente depois é que os brancos passaram a residir na vila, até que suplantaram os índios e passaram a dominar política e economicamente. Outra novidade é com relação a quem introduziu a cultura do algodão em Alagoas. Aprendi que teria sido o Ouvidor e depois Conservador das Matas José de Mendonça de Matos Moreira. Na verdade, quem trouxe instruções reais para que o algodão fosse cultivado na Comarca das Alagoas foi o Ouvidor que o antecedeu, Francisco Nunes da Costa. Em dezembro de 1776, em reunião na Câmara de Penedo, com a “presença da nobreza e povo”, as novas determinações reais foram transmitidas.

Tribuna Independente – O que a levou a abordar o tema?

Genisete Sarmento – Eu queria saber como, quando e por quem foi fundada a povoação do Macaco, que depois deu origem à Vila da Imperatriz, atual União dos Palmares. Na escola, sempre nos ensinaram que em 1810 houve a doação de terras para construção da capela de Santa Maria Madalena, mas ninguém nunca disse o que houve nesse intervalo de 116 anos, ou seja, da última batalha na Serra da Barriga até a mencionada doação. E eu sempre quis saber a partir de quando chegaram os primeiros colonos, os novos ocupantes da vasta área, se eram paulistas ou pernambucanos. Para encontrar as respostas, tive que pesquisar desde o 6 de fevereiro de 1694, porque a última batalha ocorreu justamente no território que depois passou a constituir o município de União dos Palmares. A propósito se foram paulistas ou pernambucanos que povoaram o que depois veio a ser União dos Palmares, foram os dois. Na margem direita do rio Mundaú foi Alexandre Jorge da Cruz, filho de Domingos Jorge Velho; e, na margem esquerda, o pernambucano de Itamaracá Simão Alves (ou Álvares) de Vasconcelos.

Tribuna Independente – Quem foram os personagens ouvidos para a formação desta obra?

Genisete Sarmento – Só ouvi pessoas sobre fatos ocorridos em União no século XX. Toda a pesquisa foi em documentação primária, livros, teses, dissertações e jornais antigos.

Tribuna Independente – Que lugares visitou para reunir as informações?

Genisete Sarmento – As pesquisas foram realizadas em Maceió (Arquivo Público, Instituto Histórico e Geográfico, Biblioteca Pública Estadual, Fórum do Barro Duro e Arquivo da Arquidiocese de Maceió)), Recife ( Arquivo João Emerenciano, Biblioteca Pública de Recife), Rio de Janeiro (Biblioteca Nacional), e, pela internet, acervo do IHGB, Biblioteca Digital Luso-Brasileira – Projeto Resgate, Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Fui também em Atalaia, no local de fundação da vila, e no sumidouro do Rio Paraíba, em Viçosa, onde Zumbi teria morrido.

Tribuna Independente – Quanto tempo levou para terminar a obra?

Genisete Sarmento – O interesse em conhecer a história de União dos Palmares, minha terra, é bem antigo, desde que ouvi falar sobre o Quilombo dos Palmares e o papel da Serra da Barriga nessa história. A decisão de pesquisar e, se possível, escrever o resultado da pesquisa é da década de noventa do século passado. A intensificação da pesquisa e a decisão de escrever o livro foram em janeiro de 2016, quando passei a quase viver dentro dos arquivos.

Tribuna Independente – Muitos alagoanos desconhecem essa história?

Genisete Sarmento – Sim. No dia que a conhecerem de fato e tiverem um mínimo de empatia pelos seus personagens, sobretudo por homens e mulheres que foram escravizados, pelos índios que eram donos de tudo e ficaram sem nada, perderam suas terras, suas vidas e suas culturas, não tenho dúvida que nossa sociedade, nosso Estado será um lugar muito mais interessante de se viver.

Entrevista concedida a Lucas França - Tribuna Independente -



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